Mẽbêngôkre bê me karõ opoj djwyj aben na bôj: O Encontro dos Cineastas do Coletivo Beture em Mojkarakô

A aldeia Mojkarakô, situada às margens do Baixo Riozinho na Terra Indígena Kayapó, tornou-se, entre os dias 17 e 20 de novembro de 2024, o cenário de um encontro que uniu celebração, aprendizado audiovisual e resistência cultural. Nesse período, foi realizada a Formação em Audiovisual e Comunicação Mẽbêngôkre bê me karõ opoj djwyj aben na bôj, reunindo mais de 70 jovens de diversas aldeias e territórios Mẽbêngôkre, cineastas do Coletivo Beture e uma equipe multiétnica de formadores.


Foto de Bepkue Kayapó




O evento foi também o marco do encerramento do projeto Território, Autonomia e Cultura, executado pela Associação Floresta Protegida e financiado pelo Fundo Amazônia, sob a gestão do BNDES. Coordenado inicialmente por Daniel Tibério Luz e, em sua fase final, por Andrea Abdala, com assessoria de Fernando Niemeyer e gestão financeira de Ana Cláudia Leite e Andressa Serrano, o projeto representou uma década de esforços para fortalecer a autonomia e identidade cultural dos Mẽbêngôkre.


Um de seus principais legados foi o programa "Produção Audiovisual, Cultura e Fotovoltaica na T.I. Kayapó", que não apenas documentou e difundiu as tradições, conhecimentos e práticas culturais do povo, mas também promoveu o uso de tecnologias fotovoltaicas sustentáveis visando a autonomia energética das aldeias e a preservação ambiental.


Esse encontro resultou na demarcação de um novo espaço, um território de narrativas audiovisuais que, assim como as terras indígenas, precisam ser demarcadas e protegidas. Mojkarakô consolidou-se como um espaço de produção audiovisual e um espaço simbólico para o aldeamento da mídia.



Foto de Bepkue Kayapó



A Inauguração do Centro de Mídia: Um Marco para Mojkarakô


O centro de mídia de Mojkarakô, uma das 17 casas de mídia construídas durante o projeto, foi inaugurado com grande celebração. Equipado com energia solar e internet de alta velocidade, obtida em parceria com a Conexão Povos da Floresta, o espaço é dedicado à produção audiovisual indígena, garantindo que as histórias sejam contadas diretamente pelos Mẽbêngôkre de acordo com as suas próprias perspectivas. A inauguração foi marcada por um Metoro, dança tradicional que envolve o espaço com cantos e movimentos circulares, simbolizando proteção e conexão coletiva.


Essa infraestrutura, além da sua funcionalidade prática, é também uma reivindicação política, uma resposta ao apagamento histórico das vozes indígenas na mídia hegemônica. Ao ocupar esse espaço, Mojkarakô reafirma sua posição como um território onde as histórias dos Mẽbêngôkre ganham força, forma e visibilidade.


Bepunu Kayapó: A Lente Pioneira do Coletivo Beture


No centro desse movimento está o cacique Bepunu Kayapó, homenageado oficialmente durante o evento. Formado em instituições renomadas como o Museu Paraense Emílio Goeldi, a Escola Frederico Fronta e o Museu do Índio, Bepunu é um dos primeiros cineastas Mēbêngôkre da TI Kayapó. Com mais de cinco filmes em sua filmografia, ele é também um dos fundadores do Coletivo Beture, que desde 2014 vem consolidando o cinema indígena como uma linguagem de resistência e expressão criativa.


Foto de Bepkue Kayapó



O Ciclo Formativo


Coordenado por Simone Giovine, o ciclo de 18 formações realizadas passou por aldeias como Pykararakre, Kruwanhongô, Tekrejarotire, Ronekôre, Tepdjàti e Kendjam, levando a diferentes comunidades a oportunidade de aprender e praticar técnicas audiovisuais. As oficinas foram desenhadas para abordar desde o planejamento e roteirização até a captura de imagens e a edição de filmes. Cada etapa, com suas particularidades, contribuiu para criar um mosaico de conhecimentos que culminaram no encontro em Mojkarakô.


As Turmas e Suas Histórias


Divididos em nove turmas, os participantes trabalharam com temas específicos sob a orientação de formadores experientes e monitores indígenas, entre eles representantes de diversos coletivos de audiovisual como Coquevídeo e outros comunicadores da Coiab, Apib, Mídia Índia, Instituto Raoni e Instituto Kabu. Cada turma trouxe à tona aspectos distintos da prática audiovisual, refletindo a pluralidade de olhares e vozes dentro do Coletivo Beture.


A primeira turma, liderada por Simone Giovine e monitorada por Kokongrek, concentrou-se na produção de um telejornal que documentou o evento. Com alunos já iniciados no audiovisual, o grupo aprendeu técnicas avançadas de captação de som e imagem, edição e estruturação narrativa. O telejornal registrou a formação, e serviu como exemplo do potencial informativo e mobilizador do audiovisual.


Sob a orientação de Matsi Waura Txucarramãe e Takakmoro, a segunda turma explorou a criação de um filme experimental baseado na mitologia da Máscara Bô e sua luta contra o monstro Piokaprim. Os participantes mergulharam no universo performático, utilizando o cinema como uma forma de reinterpretação e revitalização de narrativas ancestrais e experimentais.


A terceira turma, conduzida por Djelma Guajajara, Japuproti Parkatejê e Prai, focou nas redes sociais como ferramenta de luta política e fortalecimento cultural. Os jovens discutiram estratégias de engajamento e aprenderam a produzir conteúdos audiovisuais para eventos e campanhas, ampliando a presença digital das narrativas Mẽbêngôkre.


Na oficina de fotografia, liderada por Genilson Guajajara e Po Yre Mekragnotire, os participantes aprofundaram-se em técnicas como manejo de câmera, foco manual, edição e legendagem. Além da técnica, o grupo refletiu sobre o papel da fotografia como uma forma de preservação cultural e comunicação visual.


Foto de Bepkue Kayapó



Com Sally Nhandeva e Kubekàkre, a quinta turma foi introduzida ao uso de drones para monitoramento territorial e produção de imagens aéreas. A oficina destacou o papel estratégico dessa tecnologia na defesa ambiental e na produção de narrativas visuais impactantes.


A sexta turma, orientada por Caio Zatti, Beptemexti Kayapó e Bemok Metyktire, dedicou-se à edição e finalização de vídeos. Trabalhando com softwares como Adobe Premiere e CapCut, os participantes transformaram material bruto em produtos audiovisuais acabados.


Sob a liderança de Bárbara e Bepkadjoiti, a sétima turma explorou processos criativos por meio de jogos e exercícios visuais. A abordagem lúdica incentivou os jovens a expandir suas perspectivas e experimentar formas inovadoras de contar histórias.


A produção de conteúdos em língua Mẽbêngôkre foi o foco da oitava turma, liderada por Mitã Xipaya, Ireprynhgranhti Kayapó e Takakmoro. Os participantes trabalharam na criação de vídeos que abordavam temas comunitários e culturais, reforçando a importância da língua como ferramenta de preservação.


Por fim, a nona turma, comandada por Eduardo Kalif, Tomoti Kayapó e Takanhikwa, explorou técnicas de revelação artesanal em um laboratório de fotografia. Utilizando câmaras obscuras e pincéis de luz, os jovens conectaram práticas criativas ao simbolismo da memória.


Foto do Bepkue Kayapó



Demarcando Territórios Audiovisuais


O encontro em Mojkarakô mostrou que a demarcação das telas é tão essencial quanto a defesa das terras indígenas. O audiovisual emerge como um ato político, afirmando a existência e a resistência dos povos originários em narrativas construídas, protegidas e compartilhadas. O encerramento do projeto consolidou um espaço de autonomia narrativa, onde a autorrepresentação se transforma em ferramenta de luta e expressão. Mais do que formar cineastas ou inaugurar um centro de mídia, o evento articulou uma rede de produção cultural que conecta aldeias e territórios Mẽbêngôkre, ressignificando a relação entre tecnologia e identidade. Mojkarakô simboliza não apenas a preservação de memórias, mas também a capacidade de projetar futuros a partir das lentes e vozes dos próprios povos indígenas.

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