Fortalecendo a Educação Mẽbêngôkre: A Importância da Formação Complementar de Professores na Terra Indígena Kayapó

Entre os dias 8 e 22 de julho de 2024, a aldeia Madjyre, localizada nas margens do rio Xingu na Terra Indígena Kayapó, foi o cenário da 7ª Etapa Intensiva de Formação Complementar de Professores Kayapó. Este evento faz parte doPrograma de Formação Complementar de Professores Kayapó no âmbito do Plano Básico Ambiental do Componente Indígena Kayapó Onça Puma, uma iniciativa executada pela Associação Floresta Protegida e implementada pela Vale S.A com fiscalização da Fundação Nacional dos Povos Indígenas – FUNAI. Voltada para a capacitação de educadores indígenas e para a promoção de uma educação indígena diferenciada, culturalmente relevante e eficaz nas escolas Kayapó. A formação reuniu 35 educadores Mẽbêngôkre e uma equipe pedagógica multidisciplinar, com o objetivo de fortalecer o papel dos professores indígenas e aprofundar suas práticas pedagógicas, especialmente no que diz respeito à alfabetização, letramento e ensino bilíngue em contextos multianos.




::: Contexto e Importância do Programa :::


A educação nas terras indígenas enfrenta desafios únicos e complexos. Para o povo Mẽbêngôkre, a educação não se limita ao aprendizado de conteúdos acadêmicos; ela é um veículo de transmissão cultural, um meio de preservar e fortalecer a identidade e os saberes tradicionais. Entretanto, a educação escolar formal, introduzida nas comunidades indígenas a partir de um modelo ocidental, muitas vezes desconsidera essa riqueza cultural, resultando em uma desconexão entre o ensino e a realidade vivida nas aldeias.

 

Neste contexto, o Programa de Formação Complementar de Professores Kayapó surge como uma resposta necessária e urgente. A formação complementar visa não apenas capacitar os professores indígenas nas áreas de alfabetização e letramento, mas também integrar e valorizar os conhecimentos tradicionais, assegurando que a educação oferecida nas escolas indígenas seja culturalmente significativa e alinhada com as concepções educativas Kayapó. Esta etapa intensiva teve como foco central a reflexão sobre os processos educacionais Kayapó e a busca por práticas pedagógicas que respeitem e integrem a língua, a cultura e o modo de vida indígena.

 

::: Sobre a educação indígena diferenciada :::


A educação indígena diferenciada é um modelo educacional que reconhece e valoriza as especificidades culturais, linguísticas, sociais e históricas dos povos indígenas. Fundamentada no direito dessas comunidades a uma educação que respeite e promova suas identidades, essa abordagem integra o conhecimento tradicional, os valores, as práticas e as cosmovisões das comunidades indígenas ao currículo escolar, ao invés de simplesmente transmitir conteúdos acadêmicos convencionais.


Um dos pilares da educação indígena diferenciada é o bilinguismo ou multilinguismo. As escolas indígenas devem ensinar tanto a língua materna indígena quanto o português, com o objetivo de fortalecer a língua nativa e garantir que as crianças e jovens possam se comunicar plenamente em ambas as línguas. Além disso, o currículo é adaptado para refletir as realidades culturais, sociais e econômicas das comunidades indígenas. Isso inclui o ensino de conhecimentos tradicionais, como a medicina tradicional, práticas agrícolas, mitos, rituais, e a história da comunidade e do povo.

A participação comunitária é um aspecto central desse modelo educacional. As comunidades indígenas têm o direito a desempenhar um papel ativo na gestão e definição das diretrizes educacionais, vendo a educação como uma extensão da vida comunitária. Líderes locais, anciãos e outros membros da comunidade podem participar do processo educativo, garantindo que ele esteja alinhado com os valores e as necessidades da coletividade. As escolas indígenas também possuem autonomia para elaborar seus Projetos Políticos Pedagógicos (PPP), assegurando que as práticas pedagógicas e os conteúdos reflitam os valores e as necessidades da comunidade.


Esta perspectiva respeita a cosmovisão indígena, integrando suas formas de entender o mundo e promovendo a visão de mundo dos povos indígenas, fortalecendo assim a identidade cultural das comunidades. A valorização do conhecimento tradicional é igualmente importante, assegurando que o saber ancestral seja transmitido às futuras gerações e garantindo a continuidade cultural.




É uma medida essencial para a preservação das culturas e línguas indígenas, muitas das quais estão ameaçadas pela globalização e pelo modelo educacional hegemônico. Esse modelo de educação contribui para a autonomia das comunidades, permitindo que elas se fortaleçam politicamente e participem de maneira mais assertiva nas decisões que afetam seus territórios e modos de vida. No Brasil, a educação indígena diferenciada é garantida por legislações específicas, como a Constituição Federal de 1988, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) e o Estatuto do Índio. Essas normativas asseguram o direito dos povos indígenas a uma educação que respeite e valorize suas especificidades culturais, promovendo um modelo educacional que vai além da simples inserção no sistema escolar tradicional.


Apesar dos avanços, a educação indígena diferenciada enfrenta desafios, como a formação de professores indígenas, a escassez de materiais didáticos bilíngues e contextualizados, e a resistência de alguns setores da sociedade à valorização das culturas indígenas. Além disso, é necessário garantir que a educação indígena seja implementada de forma consistente em todas as comunidades, respeitando suas particularidades. É um instrumento poderoso para a preservação e o fortalecimento das culturas indígenas. Ao integrar os conhecimentos tradicionais com o ensino formal, ela enriquece a experiência educacional dos jovens indígenas e fortalece a identidade cultural das comunidades, garantindo que as futuras gerações possam continuar a viver de acordo com seus valores e tradições.


::: Desenvolvimento da Formação: Uma Abordagem Bilíngue e Multicultural :::



A 7ª Etapa Intensiva de Formação Complementar foi cuidadosamente planejada por uma equipe pedagógica, composta por especialistas como Andrey Alleoni Pereira, Bruna Simões Carvalho Teixeira, Laise Lopes Diniz, Manuela Machado Ribeiro Venancio, Mônica Dias, trabalharam em conjunto com os educadores Mēbêngôkre experientes tais como Tedjôre Kayapó, , Irerwyk Kayapó, Moipa Kaiapó e Ykatyj Kayapó. Juntos, eles conduziram discussões que abordaram desde as dificuldades enfrentadas na alfabetização e no letramento em Mẽbêngôkre e português, até a elaboração de novas estratégias pedagógicas bilíngues adaptadas para turmas multianos.

 

Uma das atividades centrais foi a finalização do Livro de Matemática em Mẽbêngôkre, desenvolvido pelos professores Mẽbêngôkre a partir de etapas anteriores do curso,  para os anos iniciais do ensino fundamental. O material foi finalizadopelos professores, que sugeriram melhorias e discutiram a criação de novos recursos didáticos que incorporassem conceitos matemáticos de grandezas e unidades de medidas ligados ao cotidiano Mẽbêngôkre. Este processo de criação coletiva não só aprimorou o material existente, como também reforçou a autonomia dos professores indígenas na construção de um currículo que verdadeiramente reflete a realidade cultural de seus alunos.


::: A Revalorização das Práticas Tradicionais e a Integração com o Ensino Formal :::


Um dos pontos altos da formação foi a revalorização das práticas tradicionais Mẽbêngôkre, especialmente no ensino da matemática. Durante as discussões, os professores compartilharam como utilizam conceitos matemáticos em suas atividades cotidianas, desde a construção de casas até o cultivo das roças, a caça e a pesca. A troca de experiências revelou que, embora os métodos sejam diferentes dos ensinados na escola ocidental, a matemática faz parte da cultura Mẽbêngôkre.

 


Irerwyk Kayapó destacou a importância de reconhecer essas práticas como legítimas e eficazes: “Nós indígenas também somos arquitetos que sabemos medir e construir casas.” Essa afirmação reforça a ideia de que o ensino nas escolas indígenas deve partir do conhecimento pré-existente nas comunidades, respeitando e integrando as práticas tradicionais ao currículo formal. 

 

Outro tema discutido foi a precificação de produtos, tanto no mercado tradicional quanto no contexto Kubẽ (não-indígena). A simulação de feiras e a troca de experiências sobre métodos de precificação demonstraram a importância da alfabetização intercultural matemática, crucial para a autonomia financeira da comunidade. Ýkatỳx Kayapó, um dos participantes, destacou o valor dessa aprendizagem: “Conhecer uma nova matemática, diferenciada, pelo nosso trabalho.”


::: Autonomia Educacional e Participação Comunitária :::


Além das atividades pedagógicas, a formação também promoveu discussões sobre a autonomia na educação escolar indígena. Os professores Mẽbêngôkre reafirmaram a necessidade de que a comunidade tenha um papel ativo na definição das políticas educacionais, garantindo que as decisões sejam tomadas de acordo com os valores e interesses da comunidade. Foi destacado o valor da elaboração de um Projeto Político Pedagógico (PPP) que reflita a realidade cultural e os anseios do povo Mẽbêngôkre, fortalecendo a identidade indígena no espaço escolar.

 

O desenvolvimento do PPP Mẽbêngôkre é visto como um passo crucial para a autonomia educacional, exigindo diálogo constante com as lideranças comunitárias e a participação ativa dos docentes indígenas. Essa abordagem participativa e intercultural é essencial para integrar as práticas educacionais às realidades locais e para mitigar os impactos de políticas externas que nem sempre respeitam as especificidades culturais das comunidades indígenas.


::: Desafios e Perspectivas Futuras :::



Apesar dos avanços significativos alcançados, o Programa de Formação Complementar de Professores Kayapó enfrenta desafios contínuos. A necessidade de garantir a continuidade das formações e de fortalecer o Território Etnoeducacional Kayapó é urgente. Isso requer a participação ativa de representantes Mẽbêngôkre na Comissão Gestora e uma interlocução eficaz com instituições como o Ministério da Educação e as Secretarias de Educação, para garantir que as políticas educacionais atendam às necessidades e aspirações das comunidades indígenas.

 

Outro desafio identificado é a necessidade de ampliar o tempo de aula para os professores Mẽbêngôkre, permitindo um processo de ensino-aprendizagem mais contínuo e profundo. A simulação de feiras, por exemplo, evidenciou a importância da alfabetização intercultural matemática, não apenas como uma ferramenta acadêmica, mas como um meio de garantir a autonomia financeira das comunidades. Bepkrinre Kaiapó, um dos participantes, resumiu essa necessidade ao afirmar: “A gente tem que aprender porque os Kubẽ vendem as coisas mais caras para nós.”

 

A continuidade desse processo depende não apenas da capacitação dos professores, mas também do engajamento das comunidades e da criação de políticas educacionais que respeitem a diversidade e a autonomia indígena. Com o fortalecimento dessas iniciativas, é possível construir uma educação que não apenas forme cidadãos, mas que também proteja e promova os saberes e a cultura dos povos indígenas, assegurando um futuro onde a educação seja um reflexo verdadeiro das identidades e valores que ela se propõe a preservar.